Hacker é alguém com habilidade extrema em uma área tecnológica com objetivo de tornar o uso de serviços e processo mais versáteis, eficientes e acessíveis. É o caso do antropólogo Carlos Diego Rodrigues, autor do aplicativo Águas ML, criado para ampliar o debate acerca das questões hídricas. "Trabalhei com uma ideia meio antiga, que é conectar pessoas com pessoas. É isso que a gente precisa para cuidar da água e dos recursos hídricos", resume. Incentivar ideias envolvendo o uso sustentável da água é um dos objetivos do 8º Fórum Mundial da Água em 2018.

O projeto Águas ML ficou com o 1º lugar na maratona Hackathon Sabesp "Água e Você", realizada nesta quarta-feira (29), durante o XXII Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos, em Florianópolis. O objetivo da Hackathon foi desenvolver soluções com bases tecnológicas para ajudar no uso eficiente da água. O vencedor ganhou ingresso para a Campus Party Brasil, o maior encontro de inovações em tecnologia do país, que acontecerá em 11 de janeiro de 2018, em São Paulo.

Carlos Diego, mestrando em Gestão e Regulação de Recursos Hídricos pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), conta que a ideia do aplicativo surgiu a partir de um trabalho realizado durante o curso, o site www.aguas.ml. "Há carência de encontrar espaços que façam ações práticas. Por isso montei uma rede social com empresas, governos, câmaras técnicas, usuários. É um espaço para juntar informações e pessoas para ampliar o diálogo", diz Carlos Diego. "Esperamos entre 100 e 200 mil pessoas online debatendo água", projeta.

Durante a maratona, os participantes tiveram que criar iniciativas inéditas em pouco mais de 24h. "Fiz o Águas ML em cerca de duas horas", brinca o vencedor. Por meio do aplicativo, usuários poderão ter acesso rápido a pesquisas acadêmicas que geralmente ficam restritas aos especialistas da área. "A ideia é levar esse debate para o povo. As pessoas precisam saber como fazer a diferença e parar de esperar o resultado pronto", pontua.

Mais do que um debate, Carlos Diego estima que o Águas ML gere benefícios diretos ao meio ambiente. "Espero que a partir desse projeto tenha muita nascente recuperada, árvore plantada, direitos indígenas e quilombolas respeitados", detalha. A plataforma foi apresentada durante a maratona em formato de teste e não está disponível para download em smartphones ou tablets.

Jefferson Nascimento, orientador de Carlos Diego no projeto de mestrado, é só elogios ao aluno. "Ele fez parte da primeira turma do ProfÁgua com mais 110 alunos, em 2016. Ele é integrado nessas questões de novas mídias e mostra que temos um potencial de trazer uma pessoa para um simpósio como esse que não se interesse apenas por palestras ou poster. Ele fez algo que vai repercutir, e isso é importante", afirma. O ProfÁgua, um programa de pós-graduação que conta com o apoio da Agência Nacional de Águas (ANA).

Em relação ao Águas ML, Nascimento foi enfático: "O projeto reune as várias mídias que estão trabalhando com água em uma plataforma para que qualquer um saiba como funciona. Essa diversidade é a água. Não podemos pensar em represar ou só proteger, tem o solo e diversos outros fatores que também são água, só que você não vê."

As iniciativas Reserbathorium e One Water ficaram em segundo e terceiro lugar na maratona. Os projetos abordaram o uso sustentável da água. Todos ganharam vale-compras na livraria Saraiva.

Hackathon

A maratona contou com cerca de 25 participantes de vários estados brasileiros, entre eles Paraíba, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso. Divididos em quatro grupos, eles podiam desenvolver projetos conceituais ou protótipos navegáveis, os famosos Apps. Os critérios de escolha do melhor projeto foram originalidade, impacto, viabilidade e inovação.

Segundo Fermando Tomé, consultor de inteligência social da empresa Comnaction, organizador do Hackathon há três anos, a ideia era fazer com que os participantes, em um tempo relativamente curto, pudessem elaborar iniciativas criativas com o tema água. "A inovação tende a ser a tônica em momentos de crise, como esse que estamos passando no Brasil. E quanto mais investirmos em recursos hídricos trazendo inovação para para domínios por meio de dados e uso de tecnologia com foco em resultados o desempenho será melhor", afirmou.

O Hackathon Sabesp "Água e Você" foi promovido pela MCI Brasil e Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, patrocinadora do XXII SBRH. De acordo com o Carlos Hashish, assessor de comunicação da Sabesp, fazer esse tipo de iniciativa em um evento técnico como o SBRH revela novos exemplos e práticas para promover a gestão de recursos hídricos. "É essa curioridade que vimos hoje que é capaz de mudar o futuro", pontua.

Essa foi a segunda edição do Hackaton dentro do Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos. A primeira ocorreu em 2015, no XXI SBRH, em Brasília. Fora da área dos recursos hídricos, somente este ano, a maratona já abordou temas envolvendo a questão agrícola, saúde da mulher, tecnologias assistivas e voltadas para pedagogia, saúde pública, mobilidade, bancos, políticas públicas, acesso ao trabalho, entre outros.